Segunda, 21 Maio 2012
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Introdução

O primeiro Land-Rover de que tenho memória ter visto, foi o emblemático 109 laranja dos S.T.C.P. o qual durante largas décadas esteve ao serviço desta companhia portuense de transportes urbanos. Longe estava eu nessa altura de imaginar que iria também eu ser “contagiado pelo vírus” dessa mítica marca de viaturas...

 

 

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Após ter recuperado um Land-Rover 88 Serie IIA, comecei a dar umas voltas e nada mais natural que começar a tirar fotos à linda viatura. Até que reparei no facto de o aspecto e o tipo de viatura que é se prestava a uma série temática de fotos à qual resolvi dar o título acima. Pretendo com elas mostrar alguns aspectos da minha cidade natal que reputo de mais originais do que aquelas que aparecem em qualquer postal ilustrado à venda aos turistas. 

 

Ao passar pelos locais mais emblemáticos da cidade do Porto, pretendo mostrar sobretudo como têm sido conservados e/ou restaurados diversos edifícios e espaços verdes, ou mesmo como edifícios de habitação dita “horizontal” se podem enquadrar de forma relativamente harmoniosa, se envolvidos pelos espaços verdes adequados.

Vou subdividir esta apresentação nas seguintes partes:
1. Da zona da Av. Mar. Gomes da Costa à do Campo Alegre (Massarelos) e de regresso, passando pela zona do Bessa.
2. A Foz velha e a subida do rio até Miragaia, passando por Massarelos (parte baixa).
3. O Porto ribeirinho (Ribeira, Barredo, S. Nicolau)
4. A “baixa” portuense, incluindo vistas nocturnas.
5. A Foz, do rio ao Castelo do Queijo

Onde possível, farei menção das famílias que habitam ou habitaram nos edifícios mostrados, sem com este gesto querer de forma alguma ferir a respectiva privacidade das mesmas.

A visita
O percurso inicia-se frente a minha casa, junto ao cruzamento da Av. Da Boavista com a do Dr. Antunes Guimarães, vulgo “Fonte da Moura” (foto 1). É uma zona de construções maioritariamente unifamiliares, e relativamente recentes (10 a 40 anos). 

Daí passamos por Serralves, aquele majestoso parque que ocupa um quarteirão inteiro e enorme, flanqueado de um dos lados pela Av. Marechal Click para ver o álbum completo...! Gomes da Costa (foto 2) Não nos detemos pelo edifício principal, já sobejamente conhecido e divulgado. Vem-me contudo à memória a magnífica peça de teatro da autoria do escritor portuense Mário Cláudio que a emblemática “Seiva Trupe”, do Teatro do Campo Alegre, levou à cena há uns anos e denominada “O estranho caso do trapezista azul”, peça essa que alegadamente retratava cenas da vida da família que outrora habitava o referido prédio.

Daqui damos um salto à zona do Campo Alegre, junto ao “polo universitário”, onde a edilidade portuense está a restaurar diversas habitações junto do que resolveu chamar “Caminhos do Romântico”, ligando um dia a parte alta de Massarelos aos jardins do Palácio de Cristal. 

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Nesta zona percorremos a rua da Pena e a rua do Gólgota, que em tempos juntamente com a Rua de D. Estefânia, para além da rua do Campo Alegre, eram ruas importantes na segunda metade do séc. XIX, nelas habitando inúmeras famílias de grande reputação na cidade. Do alto de Massarelos, da Travessa da Pena, avista-se o lado de lá do rio, Gaia, por de cima do amplo vale no qual se situa a rua de D. Pedro V.

De passagem novamente pela rua do Campo Alegre, passamos ainda por alguns dos edifícios universitários e estatais instalados em mansões majestosas que em tempos idos foram pertença de conhecidas figuras portuenses (entre os quais o meu bisavô Gustavo Adolfo Burmester, a família Andresen e a família do industrial têxtil Primo Madeira). A propósito devo referir que os jardins destas mansões bem mereceriam serem melhor cuidados, pois representam um espólio inestimável do que foi o Porto em fins do séc. XIX até, digamos, aos anos 60 do século seguinte.

Click para ver o álbum completo...!A fotografia da mansão da família Madeira  representa uma homenagem muito pessoal a um falecido genro do seu patriarca, de seu nome Enrique Adler, de origem alemã, e que construiu de forma artesanal o telescópio existente na cúpula do Colégio Alemão, um pouco adiante na Rua de Guerra Junqueiro, e que foi meu professor de  noções de astronomia naquela instituição de ensino.

Um pouco mais abaixo situa-se um enorme palacete que foi mandado construir por um cidadão dinamarquês no séc. XIX, J. H. Andresen de seu nome  e que com os acima citados das famílias Burmester e Madeira constituem ainda hoje uma imponente frente retratando o que foi o estilo de vida das famílias da época aqui no Porto.

Click para ver o álbum completo...!Este palacete e os jardins envolventes, dos quais se mostram alguns aspectos, são hoje o que pomposamente se denomina de “Jardim Botânico do Porto”. No palacete Burmester está sediada a Faculdade de Psicologia, e duvido que os alunos e professores que a frequentam tenham alguma ideia da vida que naqueles edifícios se levava um século atrás...

Os jardins frondosos de que falamos prestam aos edifícios modernos de habitação da zona uma envolvente verde invejável, semdo toda aquela zona das mais verdejantes de toda a cidade do Porto . E a pé percorremos uma das mais emblemáticas artérias da zona, a rua de António Cardoso. Aqui vemos um majestático palacete bem conservado, hoje colégio particular, e mesmo ao lado dois “polos opostos” dentro do que foi outrora o (ainda hoje bem conservado) parque da família Villar d’Allen (aparentada da família Ramos Pinto).

Click para ver o álbum completo...!Primeiro passamos por uma pequena vivenda de traça característica dos anos 50/60 do século passado, ainda hoje habitada por um elemento da família Allen e mesmo ao lado passamos a ver um dos mais espectaculares palacetes de toda a cidade: o do patriarca da família, hoje património citadino . 

Do outro lado da rua fica a casa do estilo anos 20 que foi pertença dos Castro Lemos (hoje um espaço de exibição de pintura), e ao lado pode testemunhar-se a recuperação de outra vivenda do mesmo estilo . Grande parte destas moradias, palacetes e vivendas fazem-me avivar a minha memória de juventude, pois frequentava estes espaços por ter na época sido amigo de grande parte dos filhos dos seus proprietários.

Click para ver o álbum completo...!Continuamos a nossa caminhada rua acima e deparamos com a casa que foi da família Figueiredo, na esquina com a rua de Feliciano Castilho e, entrando um pouco por esta artéria acima, vemos alguns dos exemplos de moradias unifamiliares que foram sendo ali construídas principalmente nos anos 40 e 50 do século passado, aquando da urbanização da zona. Regressamos à rua de António Cardoso e paramos defronte do palacete que foi da família Bravo, na esquina com a rua de António Patrício.

Em seguida passamos para o outro lado da rua de António Cardoso, onde existe um conjunto de habitações de propriedade horizontal mandadas construir nos anos 60 e 70 do séc. XX pela família Bessa Ribas, que ali possuía não só um imponente palacete (infelizmente desaparecido) mas também uma enorme quinta, que se estendia desde a Avenida da Boavista até ao que é hoje a V.C.I., junto a Lordelo. 

Click para ver o álbum completo...!O “miolo” desta urbanização foi construído sob supervisão do próprio dono, António de Bessa Ribas e seus filhos, que souberam dar a todo este espaço uma envolvente paisagística muito rara de se encontrar na cidade, com um frondoso espaço verde muito bem cuidado no seu centro. Até o “ecoponto” local se encontra enquadrado de forma um tanto “harmoniosa”... 

Dando um passo mais adiante, em pleno cruzamento do Bessa, podemos ver um dos primeiros prédios de habitação horizontal edificado  onde outrora existia o palacete da família Gonçalves de Azevedo. 

Click para ver o álbum completo...!Não posso deixar de referir que naquele cruzamento existiam na minha juventude um conjunto único de palacetes e habitações, rodeadas de fantásticos jardins e parques: o da família Bessa Ribas já citada, onde hoje se encontra o “monstro” de perto de 20 andares, em frente ao hotel Meridien; entre as ruas de Pedro Hispano e do Tenente Valadim, a mansão da família Burmester Ribas (onde neste momento se está a construir mais uma “torre”); e mesmo abaixo do antigo palacete dos Gonçalves de Azevedo já referido, existia um dos mais lindos exemplares de palacete “belle époque”, edificado nos fins do séc. XIX, e que foi pertença da família de Julius Gerhard Burmester, bisavô do conhecido pianista da actualidade Pedro Burmester. 

Hoje, fruto da actuação de autarcas sem visão, sentido de estética e vontade de preservação de património ímpar para gerações vindouras, vemos nesse espaço o “elefante branco” que dá pelo nome de “edifício Dallas”...

A nossa primeira visita a locais desta cidade com interesse arquitectónico terminava na zona do Bessa, outrora rica em mansões e palacetes deslumbrantes e hoje completamente descaracterizada.

Daí, descemos a Avenida da Boavista e voltamos à Avenida Marechal Gomes da Costa, desta vez para descermos à “Foz”, a frente fluvial e marítima da cidade, outrora pequena aldeia piscatória situada no reencontro do rio Douro com o Atlântico, mais tarde local de veraneio para famílias abastadas do Porto e agora zona de habitação integrada na cidade. 

Na Avenida Marechal Gomes da Costa abundam as vivendas condizentes com o estilo-de-vida dos seus proprietários. Retratámos uma, mais ou menos ao acaso, inserida num magnífico jardim, mas muitas outras haveria. 

Chegados ao “Mercado da Foz”, viramos à esquerda em direcção à zona do “castelo da Foz”. Aí, estacionamos o Land-Rover frente ao carismático e agora bem-conservado «Hotel Boa-Vista» para irmos a pé à procura de motivos interessantes para fotografar.

E eles abundam naquela zona! São pequenas ruas, muitas delas com casario baixo, casas encostadas umas às outras, varandins recheados de floreiras, beirais de telhados desencontrados, tudo dando um ambiente acolhedor, de aconchego e dando provas evidentes do decorrer inexorável do tempo!

Não resistimos a incluir uma fotografia de varandins na rua da Bela, singela homenagem pessoal ao “owner” desta página, ali nascido.

Muitas memórias nos vieram à mente naquela zona, cenas passadas nos anos 50, 60 e 70 do séc. XX, desde as idas à carismática loja de especiarias “Casa Teixeira da Costa” e depois ao ultra-famoso “Augusto”; visitas à casa de Arthur Kendall, ali na Cantareira, que tinha na sua cave um comboio-eléctrico miniatura como em Portugal poucos devem ter existido; o primeiro salvamento marítimo a que assisti – a retirada por helicóptero da tripulação do “Silver Valley”, encalhado à frente da barra  do rio; os tempos áureos da discoteca “D. Urraca; as “conspirações” utópicas no bar do já mencionado «Hotel Boa-Vista», logo a seguir ao “25 de Abril”; enfim, sensações que vão perdurando na nossa mente e que regressam sempre que se revisita o local.

Quis o acaso que os portões do «Castelo de S. João da Foz do Douro» estivessem abertas, o que nos proporcionou umas belíssimas vistas sobre a barra do rio, os seus molhes do lado norte com o carismático farol na ponta do molhe denominado de “Felgueiras”; e sobre os “courts” de ténis do «Lawn Tennis Club da Foz», de onde tantos e tantos campeões nacionais desta modalidade emergiram em tempos idos. 

Daí descemos aos molhes propriamente ditos, para respirar o salitre atirado para o ar pelas ondas que constantemente se quebram na zona, e impelido pela nortada característica do litoral marítimo do nosso país. 

As fotografias que tirámos na zona só retratam de forma pálida o ambiente, a luminosidade, a força dos raios solares e o cheiro da maresia - encanto de romantismo puro de toda aquela zona!

Só que o relato não ficaria completo sem uma visita demorada a um dos mais belos jardins públicos de toda a cidade do Porto: o jardim do Passeio Alegre. As fotos que publicamos dispensam mais palavras. Local mais que aprazível, retemperador do “stress” acumulado durante a semana...

Após uma certa pausa naquele jardim, iniciamos a subida do rio. Passamos pelo esporão com o edifício dos “Pilotos”, onde gerações de profissionais de pilotagem marítima zelaram pela correcta passagem de todo o tipo de embarcações pela mortífera “barra do Douro”, observamos os velhos “lobos do mar” na Cantareira, ali logo ao lado e fomos subindo até ao jardim do Ouro. 

A fotografia que aqui publicamos ainda o mostra como foi, antes da “renovação” actual... 

Uns metros mais acima funcionam ainda hoje os estaleiros do Ouro, onde outrora enormes quantidades de embarcações foram construídas, desde pequenos barcos a remos até grandes naus, rivalizando com os estaleiros de Vila do Conde.


Daí até Massarelos, logo acima da ponte da Arrábida foi um pulo. Estacionamos defronte do “Museu do carro eléctrico”, de onde se tem uma vista soberba sobre aquele autêntico monumento de engenharia filigrana que é a «Ponte da Arrábida».


E por aqui nos ficamos por ora, não desperdiçando a oportunidade para ir ao interior do referido Museu, que se espera vir a dar ainda um grande contributo ao transporte público da cidade do Porto, quando a nova rede de “eléctricos” estiver concluída.

No seguimento do que temos vindo a apresentar sobre diversos aspectos arquitectónicos e/ou paisagísticos tendo como tema a cidade do Porto tal como existia num determinado período de tempo a que se convencionou chamar de “romântico”, propomo-nos agora uma terceira parte, continuando o percurso anteriormente iniciado, pois como devem estar recordados tínhamos “estacionado” o nosso Land-Rover Serie IIA em Massarelos, defronte do “Museu do carro eléctrico”.

Mas, antes de tudo queremos deixar aqui dito que o objectivo deste “trabalho” é simplesmente dar a conhecer algumas bonitas fotografias tiradas aqui na cidade, sendo a temática-base a acima referida. Não se pretende de forma alguma fazer um trabalho sistemático e completo, pois tal já tem sido feito por autores bem mais credenciados.

 Esclarecido este ponto, vamos a pé dar uma volta pela parte baixa de Massarelos (Alameda Basílio Teles). Como estamos defronte ao “Museu do carro eléctrico”, e tendo-se completado estes dias os 150 anos do “americano”, carruagem puxada por um par de mulas, demoramo-nos um pouco mais defronte deste museu. 

E eis que surge uma das suas preciosidades, o grande 277 verde escuro e branco, a manobrar para entrar na “remise”! Que bonitas imagens, e neste particular devemos realçar o esforço feito por alguns responsáveis – creio que do “Museu dos Transportes”- ao terem evitado o abate total deste tipo de transporte urbano, uns anos atrás! Bem hajam, que a cidade vos está reconhecida! 

De seguida, aproveitamos o dia de sol radioso para subir parte da rua da Restauração e flectir à esquerda para a rua de Entre-Quintas, até à “Quinta da Macieirinha” e à “Casa Tait”, consideradas hoje o «coração do romântico» portuense. Tanto assim que agora, na sequência do evento «Porto, Capital da Cultura 2001» a edilidade delineou na zona alguns percursos a percorrer a pé, precisamente denominados «Caminhos do Romântico».

Chegados aqui, e antes de prosseguirmos para Miragaia, temos de contar que esta zona foi urbanizada no séc. XVIII e primeira metade do séc. XIX, tendo tido como principal motivo um surto de peste no casco urbano do Porto que pôs em fuga muitas das famílias burguesas que ali viviam. Quem para tal teve meios, mandou edificar casas senhoriais no meio de frondosas quintas junto à antiga aldeia de Vilar, zona onde hoje ainda se situa o “Seminário de Vilar”. Esta zona era caracterizada por frondosos arvoredos e verdejantes campos, possuía bons ares e sobretudo água em abundância, essencial para uma boa higiene. Infelizmente hoje já só nos restam as duas quintas acima referidas, para além dos jardins do “Palácio de Cristal” obviamente, e algumas hortas dispersas.

A este respeito, entendemos chamar à atenção dos responsáveis autárquicos para um ponto: é de facto de saudar o trabalho feito em restaurar as quintas e os caminhos referidos, sobretudo para manter a traça original da zona. Só que tal implica obviamente uma manutenção e limpeza periódica da zona, ou será que uma vez terminado o evento cultural acima citado, “terminou o esforço”? Uma vez que se fala tanto em revitalização do centro da cidade, bom era se houvesse entidades interessadas em reconstruir casas na traça da época, seja para habitação, seja para serviços (arquitectos, médicos, advogados, artistas).


Bom, após termos visitado o interior das quintas já mencionadas e vasculhado os seus frondosos jardins, apreciando a fabulosa vista para o vale do rio, voltamos a descer a rua de Entre-Quintas até à rua da Restauração. Aqui vemos uma imponente unidade comercial muito bem mantida na sua traça original (“Diógenes & Santos”), apreciamos com um sorriso o “Recado ao Porto” visível na fachada de um estabelecimento de diversão na zona, mas o fundamental é entrar numa pequena praceta situada já na parte final da rua, no seu lado esquerdo. Aqui se situa a igreja de Massarelos, ou antes: «Igreja do Corpo Santo de Massarelos» que alberga a “Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos”. 

Esta confraria foi fundada no longínquo ano de 1384 por “mareantes”, ao que reza a lenda devido a alguns deles terem sobrevivido a terrível tormenta no alto mar, durante a qual avistaram nos mastros e cordame da sua embarcação o «fogo de S. Telmo», fenómeno originado por electricidade estática e tornando visível umas pequenas chamas de fogo. Nessa altura foi feita promessa de que se chegassem a bom porto logo mandariam edificar uma capela dedicada a S. Telmo.  Assim nasceu a capela que ainda hoje se vê logo a seguir à Alameda de Basílio Teles e da qual apresentamos aqui algumas fotografias. O painel de azulejos que se vê nas suas traseiras e que mostra o Infante D. Henrique venerando S. Telmo demonstra haver veracidade nesta lenda.

Ainda defronte da igreja principal, ao lado da rua da Restauração, em pacata tarde de domingo, escutamos de súbito o inconfundível ruído de cascos de cavalo! Teríamos recuado no tempo e viria a caminho um coche da época romântica? Não, rapidamente se desfez a dúvida: era um par de guardas da GNR, montados a preceito em garbosos cavalos da corporação, sediada no Quartel do Carmo.

 Bom, e de seguida metemo-nos de novo no Land-Rover para através do muro de suporte ao antigo “Cais das Pedras” nos dirigirmos a Miragaia, até ao edifício da antiga Alfândega, agora “Museu dos Transportes”. Estacionada a viatura, após fotografia junto de outro “carro eléctrico”, iniciamos logo novo percurso a pé.


Miragaia é das freguesias do Porto com um encanto muito próprio e injustamente um pouco ostracizada. Possui inúmeros edifícios de traça antiga, e até há poucos anos fervilhava de actividade, enquanto funcionava a “Alfândega” com o inúmero cortejo de despachantes, solicitadores e demais funcionários indispensáveis à burocracia da actividade comercial trans-fronteiriça.

Aqui iniciamos diversas subidas pelas “Escadas das Sereias”, pelas dos “Mercadores”, pelas do “Monte dos Judeus”, visitamos o «Palácio das Sereias», mandado edificar no séc. XVIII pela família Cunha Portocarrero, vimos a “marca da bandeirinha”, onde se içavam as bandeiras de sinalização às embarcações demandando o Porto, vimos o esforço de restauro feito na zona, visível pelas imagens que tiramos. 

E não pudemos deixar de pensar: como seria esta parte velha da nossa cidade, se esta se situasse noutro país europeu, com mais vocação cultural para o seu passado? E foi com este pensamento na mente que nos sentamos mais à frente num estabelecimento de gastronomia a degustar uma boa “francezinha” e bebendo um bom “fino” para retemperar as energias gastas em tanto subir e descer estas íngremes encostas ribeirinhas do Porto, com tanto encanto e romantismo, e tão desconhecidas da maioria dos seus habitantes!

"Apolo já fugiu do Céu brilhante, Já foi Pastor de gado" (Tomás Antônio Gonzaga) 

Poeta brasileiro de origem portuguesa (1744-1810). Um dos principais nomes do arcadismo no Brasil. Nasce no Porto, e estuda direito na Universidade de Coimbra . Chega a Minas Gerais em 1782 para exercer o cargo de ouvidor em Vila Rica, actual Ouro Preto. Participa do grupo de poetas que tem como mestre Cláudio Manuel da Costa, um dos fundadores do arcadismo mineiro. Entre 1788 e 1789 escreve as «Cartas Chilenas», poema que satiriza os actos e desmandos do governador do estado de Minas Gerais, Luis da Cunha Menezes. 

A jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas, 20 anos mais nova que ele, inspira os versos líricos de “Marília de Dirceu”, obra publicada em 1792 . Acusado de participar na «Inconfidência Mineira» , em 1789, é condenado à prisão perpétua e passa três anos preso na ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. A pena é comutada para degredo e ele embarca para Moçambique, em 1792, onde se casa com Juliana de Souza Mascarenhas, filha de um mercador de escravos, e morre anos depois. 

Esta é, resumidamente, a história de um portuense nascido em Miragaia e como se vê elemento influente no movimento libertador brasileiro, onde foi companheiro de lutas do famoso «Tiradentes».

Prosseguindo o nosso passeio pela parte ribeirinha do Porto afora, vindos de Miragaia (fim do capítulo anterior) deparamos do lado direito, junto ao rio, com um parque para estacionamento de automóveis. Do lado oposto da rua há um caminho estreito, íngreme, com uma escadas escarpa acima. Pouca gente parece conhecer este recanto, um dos mais interessantes do Porto medieval... 

Click para ver o Álbum completo..!...são as “Escadas do Caminho Novo”, que antecedem em vários séculos a época a que aqui nos dedicamos (a época do “romântico”) e que foram construídas do lado de fora da “muralha fernandina” que na época (séc. XIV) circundavam todo o burgo portuense, para sua defesa. Todos nós conhecemos obviamente a muralha (ou o que dela resta) pois a vemos bem quando passamos pelo tabuleiro superior da Ponte Luiz I, vindos do lado de Gaia. Só que poucos conhecerão o que resta da mesma no lado ocidental, precisamente junto às referidas “Escadas do Caminho Novo”...

Continuamos em direcção ao coração da cidade. Passamos por uma frontaria de edifícios com traça muito característica, onde ainda hoje algumas firmas têm a sua sede, para além da APDL e a Junta de Freguesia de S. Nicolau. Até que chegamos ao “términus” da linha de eléctrico a que sempre se chamou “Infante”, ali mesmo ao pé da Igreja de S. Francisco. 

Click para ver o Álbum completo..!Estacionamos o “Série IIA”, pegamos na maquina fotográfica e vamos dar início a um interessante passeio a pé, por entre ruas, vielas e becos dos mais característicos do antigo casco urbano desta cidade. E vamos tentar captar alguns dos seus encantos para aqui os reproduzir.

 Esta zona, como já o afirmamos, é bem anterior ao período “romântico”, mas durante este último a actividade comercial fervilhava por esta banda... era a época dourada do Vinho do Porto, da navegação, do comércio em geral! Toda a região Norte de Portugal se vinha abastecer a esta zona, a sua burguesia espalhava-se por entre a zona ribeirinha (Largo do Infante) onde se situava a “Bolsa”, a “Feitoria Inglesa”, a Alfândega e alguns palacetes bem importantes, até à parte mais alta, mais tarde conhecida ironicamente por “Baixa” do Porto. Portuenses misturavam-se aqui com súbditos ingleses e alemães, principalmente, e figuras importantes da época percorreram todos os caminhos, passeios, calçadas e escadarias de que aqui damos alguns exemplos...

Click para ver o Álbum completo..!Fomos à descoberta de recantos de grande interesse, desde a rua da Reboleira, onde vimos algumas vizinhas em amena cavaqueira entre a rua e as varandas das suas habitações, até ao Largo da Ribeira (agora mais conhecido pela Praça do Cubo...). Passamos por um restaurante ao qual se acede por um passadiço todo envidraçado ao mias puro estilo “belle époque”, demos uma espreitadela no “Mal Cozinhado”  (que eu saiba, único restaurante no Porto onde regularmente se pode ouvir fado), apreciamos a magnífica frontaria do casario virado para o rio Douro, banhada por um amarelado sol de fim-de-tarde. Do outro lado da Praça da Ribeira embrenhamo-nos pelo que é conhecido por “casario do Barrêdo” (vulgo “Ribeira”). 

 Na “Cozinha da Alzira” fomos comer um arroz de bacalhau como só mesmo a mãe da Telma, a própria D. Alzira, o sabe cozinhar e pelas vielas afora fomos ao encontro de momentos passados... Cruzámo-nos com o “Duque da Ribeira”, Deocleciano Monteiro de seu nome enquanto foi vivo, “Duque” como perdura na memória do Porto ribeirinho... vimo-nos em noitadas dentro do “D. Tonho”, restaurante “nobre” da zona e pertença do Rui Veloso e do seu sócio Zé Pereira, ouvindo o mesmíssimo Rui cantar as suas canções mais badaladas noite adentro... mais no tempo recuamos ainda, até revermos na nossa memória o saudoso Almerindo que abriu o “Bebobos”, castiço restaurante que de forma categórica contribuiu para a revitalização desta zona, mais tarde acrescentando-lhe mesmo ao lado uma interessante loja de artesanato. E mais ainda recuamos, até a épocas da nossa juventude, anos de estudante durante os quais tantas vezes íamos às famosas “tainadas” de amigos no “Filha da Mãe Preta” e no “Chez Lapin”...

Click para ver o Álbum completo..!Bem, regressados ao nosso passeio, subimos de novo ao Largo do Infante, relembrando-nos do lindo jardim que ali existia, mesmo aos pés do Mercado Ferreira Borges, antigo “Mercado da Fruta” desta cidade. Subimos até à rua do Belomonte, rua famosa em tempos idos... 

O palacete dos Pacheco Pereira, ao lado do mais que centenário escritório da casa de vinhos do Porto «J.W. Burmester» e «Gilbert’s & Co», o antigo escritório da firma «E. Leichsenring» que fabricava as famosas pastas de arquivo “ERIL” e distribuía canetas da afamada marca alemã “Pelikan”, ao lado da casa onde agora se situa o “Teatro de Belomonte”, mais abaixo a “Farmácia Moreno” mesmo ao lado do “Araújo & Sobrinho”, esta firma já no Largo de S. Domingos. 

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Nesta zona entramos num café, impecavelmente restaurado na traça da época, para tomar uma café retemperador, antes de retomar o passo pela zona, não sem antes darmos uma espreitadela pela antigamente ultra-badalada “rua das Flores”.


De novo pela rua do Belomonte acima, fomos dar ao Largo de S. João, no alto da freguesia de S. Nicolau. Grande palacete senhorial e à sua frente a majestosa Igreja de S. João Novo, mesmo ao lado de outro sumptuoso palacete, que hoje serve de tribunal de Justiça. Nesta zona damos de novo com o que resta da “muralha fernandina” já atrás descrita e vemos uma pequena igreja que foi a original “Capela de S. João”, este oriundo da cidade beirã de Belmonte (daí a designação de “rua do Belomonte”...).

Click para ver o Álbum completo..!Espreitando por entre os altos muros de granito conseguem-se lindíssimas vistas para o “lado de lá”, como sempre ouvi as gentes referirem-se a Gaia... Após uns momentos de visita ao interior do “Palácio de S. João Novo”, descemos a respectiva rua e, virando para a ”rua d’ O Commercio do Porto”, encontramos muito escondida uma antiga oficina de “faz-tudo”... termo hoje caído no esquecimento, mas antigamente profissão bem apreciada pois os seus artífices faziam mesmo de tudo, desde encadernar livros estragados, a reparar bonecas partidas e a recuperar guarda-chuvas revirados pelas intempéries...

Click para ver o Álbum completo..!Apressando o passo, que o relato vai longo, ainda subimos as “Escadas de S. Bento” até ao apertado largo de S. Bento da Vitória (zona bem “temida” por certa camada de indivíduos, por lá se situar a sede da PJ...) de onde se tem uma vista deslumbrante sobre o monte que lhe fica defronte, o morro da Sé. Terminamos este passeio metendo-nos de novo no “Serie IIA” para atravessarmos para o lado de Gaia a fim de darmos uma vista sobre o Porto tirada de uns antigos estaleiros onde se construíam em tempos idos barcos, barcaças e os famosos “barcos rabêlo”. Muito poderíamos ainda deambular pela zona, toda ela riquíssima em História, mas por hoje ficamo-nos por aqui.


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Álbum I

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Álbum IV


Texto e Fotos de Carlos Gilbert.
Porto , Março/Abril 2002


Actualizado em Domingo, 18 Dezembro 2011 16:33
 

Comentários  

 
0 #1 Re O Porto Romântico, por Clarlos Gilbert 2011-10-29 22:33
Conheço Porto de viver dos 30 aos 52 e na minha juventude at´aos 18 anos ía lá passar férias a casa dos meus Avós....gosto muito de ler e ver "coisa" do Porto
Citação
 

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